
Musicoterapeuta: Imprescindível ou dispensável nos dias atuais.
Mt. Dionatan Matos dos Santos CPMT 210/08
Certamente o Musicoterapeuta relaciona-se com a música de uma forma distinta. Para este profissional o uso terapêutico da música é enfatizado e construído em sua essência pelo significado da arte.
Música é arte, obviamente. E arte é um fazer, uma maneira de transformar a matéria oferecida pela natureza e pela cultura (BOSI, 1985). Dentro desta perspectiva artística, o Musicoterapeuta pensa a música, como um fazer e uma transformação dos sons. Neste sentido, música está mais para verbo do que para substantivo. Música é o que fazemos, até mesmo quando a escutamos. Este fazer é um forte fundamento para a sua eficácia terapêutica, considerando uma congruência entre arte e vida. “El curso de la vida es algo similiar a dar forma a una obra de arte, porque ambas son creativas y expressivas” (GASTON, 1968, p. 46). E para o Musicoterapeuta, a obra de arte não limita à música, mas vai além dela, considerando quem a experimenta, sendo o cliente e/ou grupo.Ao pensar música como arte, o Musicoterapeuta vê o cliente como criador e co-criador desta arte.
O cliente, independente de ter ou não Educação Musical, é um artista. Na Musicoterapia há uma premissa básica de que o cliente é um artista não só da música em si mesma, mas também da sua própria vida. Música e vida não se separam no setting musicoterapeutico. Em um contexto terapêutico, a música compartilhada entre Musicoterapeuta e cliente, é o meio em que se encontram sentimentos, crenças, inquietações e demais fatos que estejam relacionados à saúde do cliente.
Portanto, o entendimento da música está em sua contextualização na vida do cliente. Em si mesma, a música não é terapêutica, pois é uma atitude humana, fruto do esforço humano em produzir sons que tenham sentido não somente para quem faz, mas para também para ouvinte que a escuta.
De acordo com este modo de pensar, o Musicoterapeuta faz música com e para o cliente. Sua produção musical está em função do cliente, de modo que um dos principais objetivos de todo trabalho é o conhecimento e a interação de musicalidades do musicoterapeuta e do cliente para que este último possa ser uma pessoa melhor em outras dimensões da sua vida, além do aspecto musical. E musicalidade sendo entendida como uma característica e atributo inato a todo ser humano, como um modo de cognição e percepção da realidade através da música (QUEIROZ, 2003).
Cliente e Musicoterapeuta se relacionam um com outro por meio da musicalidade de cada um. Nessa relação, o Musicoterapeuta sente o ser humano presente na música. Se, por exemplo, o cliente canta ou solicita determinada canção, o musicoterapeuta sente esta música como manifestação objetiva do universo subjetivo do cliente. A música passa a ser um elo que liga duas subjetividades; Musiooterapeuta e cliente. RUUD (1991) assinala que não existe um acesso direto à vida interior de outras pessoas, sendo a música uma espécie de “objeto” exterior que realiza essa mediação entre subjetividades. Música, neste sentido, é um modo de se expressar e compartilhar uma mesma realidade.
A arte pensada, produzida, e sentida como uma maneira de compreender a realidade. (JENSEN, 1991). A música está sempre em função do ser humano, pois ela depende dele para existir. Desta forma até mesmo um excelente músico pode necessitar de um Musicoterapeuta (e talvez sejam os músicos os que mais necessitam passar por um processo musicoterapêutico em nossa sociedade), pois talvez sua vida não esteja tão boa quanto sua música. Considera-se que o poder terapêutico da música não está nela mesma, mas naquilo que fazemos com ela. O musicoterapeuta tem então um papel fundamental na sociedade atual, em que a música está sendo cada vez mais conceituada como um produto cultural “inofensivo”.
Penso e acredito que a maior missão do Musicoterapeuta está em ajudar as pessoas a serem mais conscientes e sensíveis à música que escutam para que saibam fazer melhor uso dela para si mesmos para os outros.Esta missão envolve um compromisso do Musicoterapeuta com a saúde das pessoas. Não uma saúde que se limite ao bem estar físico, mas também mental, social, espiritual. Uma saúde que se traduz pelo cuidado com o modo de cada pessoa usufruir sua própria musicalidade e pela compreensão dos sons que a vida nos apresenta a cada dia.
“A vida tem sons que pra gente ouvir precisa aprender a começar de novo [...] é como tocar o mesmo violão e nele compor uma nova canção [...]” (Canção “Começo, Meio e Fim” do grupo Roupa Nova).
REFERÊNCIAS.
BOSI Alfredo. Reflexões sobre a arte. São Paulo: Ática, 1985.
GASTON Thayer E. Tratado de Musicoterapia. Buenos Aires: Paidos, 1968.
JENSEN. Música e Saúde na Sociedade Pós-Moderna. In RUUD, Even et al. Música e Saúde. São Paulo: Summus, 1991.
QUEIROZ, P. J. Gregório. Aspectos da Musicalidade da Musica de Paul Nordoff e suas implicações na prática clinica musicoterapêutica. São Paulo: Apontamento, 2003.
RUUD, Even et al. Música e Saúde. Trad. Vera Bloch Wrobel, Gloria Paschoal de Camargo, Miriam Goldfeder. São Paulo: Summus, 1991.